Exaustos e enterrando parentes: O fardo de ser servidor municipal na pandemia

Pouca gente enxerga, mas os servidores públicos estão há um ano expondo suas vidas e de seus familiares para proteger a vida de toda a população; mesmo assim, são atacados e desvalorizados pela comunidade e pelo governo



Alvos constantes de críticas por parte da população, nesta pandemia os servidores municipais pagam com suas vidas e com a vida de seus familiares o preço de terem escolhido esta categoria.

São eles que estão nas UPAs, nas ambulâncias, nos postos de saúde, mas também nas fiscalizações, na Casa Transitória, cuidando da segurança, do trânsito, evitando a dengue, e trabalhando na retaguarda para que a cidade e os serviços públicos não parem durante a pandemia e você possa viver a sua vida, mesmo que confinado.

São os servidores municipais, que muitas vezes são chamados de vagabundos e privilegiados, que estão na linha de frente, combatendo a doença cara-a-cara e tentando proteger você. Faz quase um ano inteiro que os servidores estão em alerta máximo, trabalhando em um ritmo insuportável, para tentar segurar o avanço da Covid-19 na cidade e para manter funcionando os serviços que a população necessita.

Mas eles não são heróis, são pessoas de carne e osso, e sentimentos. São pessoas que estão afastadas de seus parentes há quase um ano, porque o risco de contaminação é muito grande. Pessoas que assistem a morte, a morte pela asfixia, sem amigos ou parentes para confortar a vítima. Vivenciar isso tem consequências sérias para os servidores, do ponto de vista psicológico. São pessoas que ainda ouvem xingamentos e são agredidas por quem não acredita na doença ou por quem se acha no direito de desrespeitar as normas de segurança.

Como pessoas, e não heróis, nesse cotidiano alucinante, muitos servidores adoeceram, foram contaminados, alguns morreram, outros enterraram pais, mães, parentes. Isso acaba com qualquer um. E, mesmo assim, eles não esmoreceram. Apesar de arrasados, seguem firmes para combater a propagação do vírus e cuidar para evitar a morte de quem se contaminou. Seguem, sem serem heróis, porque sabem das suas responsabilidades e têm compromisso com a vida.

Mas, como pessoas, os servidores municipais estão cada vez mais abalados, cada vez mais exaustos, porque a pandemia não dá trégua, não dá espaço para o descanso, tira o ar das pessoas, mata na solidão. O desgaste psicológico é difícil de ser medido, mas é claramente perceptível em boa parte dos servidores, exaustos, ansiosos, entristecidos.

E, como se não bastasse tudo isso e a crítica de parte da população (que trata mal quem fiscaliza, quem atende, quem cuida), os servidores municipais ainda têm que enfrentar o descaso do próprio governo Edinho, que resiste em afastar servidores do grupo de risco, que não dá condições adequadas de trabalho presencial, que não paga grau máximo de insalubridade para quem está se expondo nos postos de saúde e que só valoriza a categoria quando está falando para a imprensa, mas nos bastidores retira direitos e não concede reajuste nem da inflação.

Os servidores estão no limite. Se nada mudar, poderemos ter um adoecimento psicológico em massa na categoria.

262 visualizações0 comentário